Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Ante-estreia (5) - Marta Hugon

                                                                                                                              Marta Hugon: uma contadora de histórias

 

 

 

Story Teller

(Som Livre / Som Livre)

1. Good Morning Heartache; 2. You're Getting to be a Habit With Me; 3. Never Let Me Go; 4. Just in Time; 5. Still Crazy After All These Years; 6. The Trouble With Me is You; 7. Crash Into Me; 8. Suburbano Coração; 9. River Man

 

 

Marta Hugon (voz); Filipe Melo (piano, arranjos); Bernardo Moreira (contrabaixo); André Sousa Machado (bateria). Convidados: André Fernandes (guitarra); João Moreira (trompete)

 

 

 

 

Julgo que o melhor elogio que se pode fazer a um dado disco é descobrir, chegada ao fim a sua audição, que esta passou como que num ápice, quase não nos dando conta - como manifestamente acontece com este álbum - de que, afinal, acabámos de escutar nada menos que nove faixas, todas elas encerrando particulares motivos de atenção.

                          

É então de Story Teller que hoje vos falo, nesta ante-estreia a propósito de uma advance copy à qual O Sítio do Jazz teve acesso, assim vos revelando, em primeira mão, a excelente impressão que me causou o novo disco de Marta Hugon, a lançar na próxima semana.                                                                                                                                                               

É de resto a própria cantora que, no pequeno texto que escreveu para o encarte do CD, começa por desvendar as razões que estiveram na sua génese: «(...) de entre as minhas canções preferidas, dentro e fora do jazz, acabei por escolher um conjunto de temas que funcionam como pequenas narrativas. Apropriei-me delas e transformei-as nas minhas próprias histórias (...). Depois de gravado o disco e de a música ter ganho vida própria, ficou este Story Teller. Para que cada um possa encontrar numa canção o espelho da sua própria história.» 

E o certo é que, depois de ouvido o disco, sem dúvida que as várias histórias que as canções escolhidas nos contam parecem concorrer, todas elas, para a formação de uma narrativa global com notável coerência interna, ou seja, como se costuma dizer: com princípio, meio e fim. E julgo que são vários os elementos que concorrem, quanto a mim, para o feliz e homogéneo resultado final deste álbum extremamente agradável, que começa muito bem e acaba ainda melhor.

                                                                

Sendo bem verdade que Story Teller coloca em particular destaque um dado músico - e, neste caso, uma dada voz, que é por excelência um veículo expressivo que atrai particulares atenções - a especial distinção deste disco está no trabalho colectivo que ressalta das várias fases da sua produção e pós-produção: a escolha do material temático, os arranjos a que esse material foi sujeito (deixando que a voz ganhe uma justa valorização), a interpretação da cantora e dos restantes músicos e, por último, o próprio equilíbrio da gravação. Mas outro aspecto, porventura menos evidente, foi aqui particularmente bem cuidado: o do alinhamento final das várias peças (independentemente da ordem pela qual elas tenham sido gravadas), um factor decisivo para o bom êxito de qualquer disco.

        

Reunindo um punhado de canções, mais ou menos conhecidas, de alguns compositores sonantes como Jay Livingston ou Jule Styne - que costumamos associar ao chamado «cancioneiro norte-americano» e se foram tornando, ao longo dos anos, verdadeiros standards do jazz - Marta Hugon não hesitou em somar-lhes (para o objectivo concreto deste álbum) outras belíssimas canções oriundas de outros tempos e de outros contextos e saídas da pena de grandes autores da chamada pop, como os célebres Paul Simon e Chico Buarque, do rock como Dave Matthews ou desse notável e malogrado vulto (para muitos obscuro) da folk britânica, Nicholas Drake, que em boa hora a cantora foi descobrir ao interior profundo da Inglaterra dos anos 70.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No plano puramente musical, é preciso dizer-se que Marta Hugon, apesar da sua voz jovem, nos soa hoje com uma assinalável maturidade, dominando e graduando com inteiro à-vontade os vários mecanismos vocais em função das peças cantadas, assim lhes conferindo uma forte personalidade. Depois, sente-se que a própria escolha das tonalidades de cada peça foi cuidada caso a caso, ao ponto de valorizar a capacidade de afinação, a clareza da dicção e da articulação e os cambiantes tímbricos da sua voz, assim melhor sublinhando a expressividade de cada interpretação. Finalmente, a prudente recusa por parte de Marta Hugon de certos tiques do jazz cantando - como a exteriorização forçada da emoção, os malabarismos na utilização do scat ou a sobreexcitação vocal -, aqui substituídos pela justa medida com que alguns destes elementos são usados pela cantora, transmitem credibilidade a um álbum que naturalmente passará a impor-se no panorama actual do jazz cantado português.

                     

Importante e também ele marcado pelo profissionalismo e pelo bom gosto, é o lado instrumental de todo o disco, em particular a traça dos arranjos, muito bem gizados por Filipe Melo, o que de certo modo não deixa de surpreender, sabida a natural e habitual impetuosidade do pianista, aqui substituída por um recato preciso e absolutamente adequado.                                                                                                                                                       

Quanto à coesão e eficácia do suporte harmónico e rítmico, este é assegurado, com a musicalidade e competência de sempre, por Bernardo Moreira e André Sousa Machado. E até mesmo a parcimónia com que são utilizados (em apenas dois temas cada um) os talentos de convidados de luxo - André Fernandes e João Moreira - reflecte a conta, peso e medida com que Story Teller foi concebido, muito embora por vezes desejasse que se fizessem ouvir mais.

                                                                                                                                    

Enfim, um álbum inteligente, maduro e altamente democrático, no qual ninguém força, ninguém exorbita, ninguém se põe em bicos dos pés ou puxa pelos seus próprios galões!


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 09:15
Link para este post
Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Orrin Keepnews - Capítulos 7 e 8

 

Mais uma vez aqui estão de regresso, numa sequência que tem a sua origem na publicação de uma notável série de reedições  – a  Keepnews Collection –  mais dois capítulos da colecção de podcasts subordinada ao título genérico Orrin Keepnews,  Producer e realizada por Bret Primak para a Concord.
 
Desta vez, estarão em foco dois grandes mestres e pianistas do jazz moderno: Thelonius Monk e Bill Evans. No primeiro caso, a importância do álbum mencionado por Keepnews é enorme  – Thelonius Monk At Town Hall –  a ponto de justificar a divisão em duas partes do Capítulo 7 desta série. Note-se, a propósito, que os amadores de jazz que estão a pensar em assistir ao prometedor concerto de 29 de Abril na Casa da Música (Porto), no qual Jason Moran evocará esta histórica gravação de 1959, terão todo o interesse em conhecer antecipadamente algumas das histórias que a rodearam.
 
Por exemplo, Orrin Keepnews recorda como foi apanhado a meio de um processo em que a prestigiada sala de concertos de Nova Iorque já estava alugada para o concerto, sem que ele disso tivesse conhecimento. Depois, a ironia e o humor subtis do grande produtor desvendam-nos incidências de bastidores, como a «ameaça» de Monk a Donald Byrd de o substituir por… Lee Morgan, caso ele não comparecesse aos ensaios! Mas também a dificuldade de, naquele tempo, gravar um concerto inteiro, sem que a mudança de bobinas provocasse o corte em qualquer peça, é também aqui abordada, tal como a história sobre a  (feliz)  inclusão integral de Little Rootie Tootie no repertório do disco.
 
Já no Capítulo 8, assistimos à abordagem por Keepnews do génio de Bill Evans, ao falar-nos da importância da sua musicalidade e invenção mas também das fraquezas e inseguranças de uma personagem tão especial e sensível na história do jazz.
 
A não perder!
                                                                                                                                                 
Thelonius Monk At Town Hall - Part 1
  

 

Thelonius Monk At Town Hall - Part 2

 

Portrait of Bill

                            


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:08
Link para este post
Terça-feira, 25 de Março de 2008

Os 60 anos do Hot Clube de Portugal

  

                                                                              Os habituais visitantes de O Sítio do Jazz que não se admirem de apenas aqui encontrar nesta crónica  (ainda por cima tardia, por motivo de imediata partida de Lisboa)  algumas breves impressões acerca da emocionante festa de aniversário que ocorreu na passada quarta-feira 19, no Cinema S. Jorge, naquela que foi a noite de consagração e comemoração dos 60 anos de vida do Hot Clube de Portugal, o primeiro e mais importante clube português no que à prática e divulgação do jazz diz respeito e ainda no que toca ao entusiasmante convívio  (há seis décadas consecutivas)  entre amadores e profissionais de jazz de todas as idades e origens, sociais e nacionais.                                                                                 
        
Acontece que, ao contrário do que me é habitual em termos de fruição e análise da música, não estive desta vez  (por assim dizer)  «do lado de fora», apenas ouvindo o que se tocava em palco para depois vos dar a conhecer uma opinião imparcial. Neste caso concreto, não pude deixar de «estar por dentro»: por um lado, porque, desta história de 60 anos de vida, 50 deles foram intensamente partilhados e testemunhados no plano pessoal, não podendo portanto as opiniões aqui expressas deixarem de ser altamente parciais; depois, porque durante a própria noite em que o concerto se realizou, tive o gosto de estar envolvido  (e, portanto, ocupado)  na magnífica equipa que levou a cabo a sua transmissão directa através da Antena 2, naquele que foi mais um magnífico exemplo de serviço público e que se ficou a dever ao apoio de Rui Pego e à carolice de João Almeida, seus responsáveis maiores.                                                                                                                                                           
                                                           Fotos: cortesia do HCP e de © Joaquim Mendes
                                                                                           
Numa noite em que também marcaram presença na velha sala lisboeta  (sendo justamente homenageados)  alguns históricos do próprio HCP  – para além de outras personalidades ligadas ao mundo das artes, da cultura e da política, que assim quiseram associar-se às comemorações de um percurso a todos os títulos notável no trajecto da cultura portuguesa –  a música teria de representar a parte de leão, ainda por cima com a subida ao palco da magnífica big band do Hot Clube de Portugal, dirigida por Pedro Moreira, acompanhada pelos convidados especiais Maria João e Mário Laginha e ainda por um outro solista vindo de terras britânicas, já um amigo da casa e frequentador regular da nossa cena jazzística: Julian Argüelles, um talentoso saxofonista (ver foto).
 
Com uma única excepção, todas as peças ouvidas no concerto eram da autoria do próprio Mário Laginha  – algumas, mesmo, pela primeira vez tocadas entre nós –  e resultaram de encomendas feitas ao pianista e compositor nos últimos anos por outras instituições musicais: a big band da Hessischer Rundfunk, ou seja, a rádio pública alemã  (de Frankfurt), a big band do próprio Hot Clube de Portugal, a Orquestra de Jazz de Bruxelas, a Orquestra Jazz de Matosinhos e a Big Band Nacional da Juventude.
 
Várias características predominantes no estilo e na marca composicional  (e desta vez também orquestral)  de Mário Laginha estiveram presentes no repertório apresentado: o tom quase sempre jovial e prazenteiro da sua música e, ao mesmo tempo, a evocação e a seriedade na utilização de modelos de composição consagrados, como foi o caso da Fuga em Ré Maior; o estilo poderoso das grandes massas orquestrais, como aconteceu na orquestração de Coral  (curiosamente evidenciando um carácter bem português e ao mesmo tempo a singeleza de uma «canção de embalar»)  contrastando de forma feliz com o brilhante jogo polifónico e contrapontístico de Matosinhos, peça a que ficou associado na medley de abertura; ou o swing leve e solto, ainda com as entradas fugadas de vários instrumentos isolados ou naipes instrumentais, no curiosíssimo Estiramanténs.
 
Já com a participação da polivalente e expressiva voz de Maria João, foram a beleza tranquila de Parrots & Lions, a solenidade de Horn Please, a agitação, o carácter narrativo e a brilhante orquestração de Sete Facadas ou a surpreendente transposição para grande orquestra desse exigente perpetuum mobile que é Coisas da Terra que arrebataram tudo e todos. Sem esquecer, claro, esse admirável parêntesis que foi a versão para dueto  (voz / piano)  de uma obra-prima de Edu Lobo e Chico Buarque como é Beatriz.
                                                                                 
Enfim, já noite fora, no foyer do cinema, jovens alunos da Escola do HCP deram início a um convívio musical descontraído que deixou entender como o testemunho dos mais experientes e conhecidos músicos de jazz portugueses  (que polvilhavam a sala)  irá continuar a passar de mão em mão, na paixão pelo culto de uma música que se recusa a ficar parada no tempo.
_______________________________
 
Concerto Comemorativo do 60º. Aniversário do HCP
Quarta-feira, 19 de Março de 2008, 22:00 horas
Cinema S. Jorge Lisboa)
 
Big Band do Hot Clube de Portugal
João Moreira, Miguel Gonçalves, Tomás Pimentel, Gonçalo Marques (trompetes);
Claus Nymark, Lars Arens, Peter Weatherhill, Luís Cunha (trombones);
Julian Argüelles, Zé Maria, Jorge Reis, César Cardoso, Guto Lucena (saxofones e madeiras) e Paulo Gaspar (clarinete-baixo);
André Fernandes (guitarra), Bernardo Moreira (contrabaixo), André Sousa Machado (bateria)
Solistas convidados:
Maria João (voz), Mário Laginha (piano)
Direcção:

Pedro Moreira


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:06
Link para este post
Segunda-feira, 17 de Março de 2008

Uma excelente edição do Braga Jazz

 

 

Com créditos já firmados no panorama português dos festivais de jazz, o Braga Jazz, anualmente realizado sob a direcção artística de José Carlos Santos  (nome importante na divulgação do jazz a norte do país), apresentou no seu primeiro fim de semana alargado  – o único a que pude assistir –  uma série de três concertos que, na conjugação e contraste entre três perspectivas diferentes, constituíram uma excelente abordagem de algumas direcções estéticas do jazz actual.
 
A assegurar a representação do jazz português, a Orquestra Jazz de Matosinhos (1) inaugurou o evento deste ano, demonstrando os caminhos da moderna big band no jazz e explorando com grande segurança várias das peças ultimamente compostas para esta formação pelos seus dois directores: Carlos Azevedo e Pedro Guedes.
 
Confirmando um assinalável à vontade sobre o palco e enfrentando com elevada coesão as dificuldades  (sobretudo expressivas)  que um repertório tão sensível encerra, a OJM destaca-se, cada vez mais, por uma crescente identidade e espírito de grupo. Aliás, a própria concepção das composição tocadas e a clara aposta dos seus autores numa constante alternância entre diversos tipos de associações instrumentais  – privilegiando muito mais a interpenetração e contaminação dos vários timbres do que o jogo dialogante e contrastante entre eles –  só podem ter plena expressão e correspondência, ao nível da interpretação, se existir à partida um trabalho de fundo que ajude à plena interiorização dessas composições.
                                                                                                                                 
                       Fotos: cortesia Theatro Circo e © Paulo Nogueira                                                                
E o certo é que, a cada nova apresentação da OJM, a sua crescente evolução pode observar-se sobre ângulos diferentes: agora, foi possível descortinar, por exemplo no plano técnico, uma maior precisão nos trompetes  (com ataque firme e clareza das notas agudas), o amplo espectro tímbrico facultado pelos trombones  (permitindo um mais eloquente aproveitamento e realce dos registos graves)  e a dextra mobilidade colectiva dos saxofones e restantes «madeiras», com a afirmação de José Luís Rego como indiscutível chefe de naipe.
 
Mais uma vez evidenciando  – como já acontecia no álbum gravado com a OJM para a Fresh Sound New Talent –  a rica e desenvolta capacidade de invenção solística e de integração num repertório que parece ter sido composto à sua justa medida, o saxofonista norte-americano Chris Cheek, notável solista convidado, tornou ainda mais impressiva a performance da orquestra e o próprio concerto, desta vez incorporando outras composições que não integravam o line up do disco e que foram encomendadas pela European Youth Jazz Orchestra e pela Orquestra de Jazz de Bruxelas.
 
Passando de uma grande formação instrumental à aparente austeridade de um trio de constituição invulgar que responde pelo original nome de guerra BassDrumBone e que no ano passado completou 30 anos de existência num percurso não isento de hiatos conjunturais, o concerto da noite seguinte deu-nos a ouvir, mais uma vez, Mark Helias (contrabaixo), Gerry Hemingway (bateria) e Ray Anderson (trombone).
 
Instrumentistas de referência em cada um dos seus instrumentos e todos eles líderes de ambiciosos projectos individuais, os membros do BassDrumBone surpreenderam de certo modo quem lhes conhecia os seus mais antigos trabalhos discográficos, pelo claro afastamento em relação a um repertório de recepção porventura mais familiar e reconhecível (como certas peças de extracção funk)  ou pela abordagem mais exigente e complexa de certos espécimes desse mesmo repertório.                                                                      
Fazendo coabitar no interior de algumas composições mais extensas momentos de improvisação livre com variações rigorosamente apoiadas em estruturas formais preestabelecidas, como aconteceu em Rhythm Generation, o trio impressionou também pela inteligente associação entre a criativa evocação das tradições do jazz e a frequente opção por uma linguagem de modernidade, de que The Mask foi exemplo exuberante. Por outro lado, a distinção habitual  (embora sempre desadequada no jazz)  entre instrumento «solista» e instrumento «acompanhador» é aqui completamente subvertida, sendo estes atributos distribuídos de forma não-hierárquica e em função de uma inteira correspondência à personalidade e lógica interna de cada peça.
 
Esta opção pela seriedade e pela exigência, sempre patente numa postura de grande descontracção e natural boa disposição, seria impossível sem a irrepreensível e multifacetada cultura de cada um dos músicos no plano instrumental. Ray Anderson é, ao mesmo tempo, um claro admirador dos maiores mestres clássicos do trombone e um apaixonado pelo experimentalismo multifónico, enquanto Mark Helias está tão à vontade nas cadências regulares e por vezes vertiginosas do tempo walking como nos «ataques» aleatórios às cordas do contrabaixo  (simples e dobradas)  e mesmo à caixa de ressonância do seu instrumento. Pelo seu lado, Gerry Hemingway evidencia-se quer pelo «desgoverno» e fracturante desmultiplicação dos padrões rítmicos quer pela imposição imparável de um swing a toda a prova.
 
A encerrar a primeira parte do Braga Jazz 2008  – e porventura no melhor dos três concertos que a preencheram –  a nova constituição do quinteto Circle Wide, liderado pelo baterista George Schuller, proporcionou-nos ainda uma outra abordagem do jazz contemporâneo. Parecendo tratar-se de um grupo dedicado à invocação e reavaliação de repertórios que distinguiram determinadas épocas  – recorde-se, a propósito, que o primeiro Circle Wide tinha na sua composição a trompetista Ingrid Jensen e como fonte de inspiração o Miles Davis de Circle in the Round (1967) –, esta formação mais recente de Schuller recorda-nos um outro grupo de referência: o chamado «quarteto americano» de Keith Jarrett, cuja formação de base (1971 a 1976) integrava Dewey Redman, Charlie Haden e Paul Motian.
 
Propondo-nos um repertório saído da pena de Keith Jarrett mas também composto pelo próprio George Schuller num estilo deliberadamente inspirado naquele, este quinteto revelou-se um colectivo de primeira água, dele sobressaindo com naturalidade o fogoso talento de Donny McCaslin  – um dos mais impressionantes saxofonistas contemporâneos, na linha evolutiva de Michael Brecker, seu modelo inicial – e ainda o guitarrista Brad Shepik, cuja expressividade terra-a-terra e o gosto pelos blues mais uma vez ajudaram a esclarecer como, nos nossos dias, colar etiquetas definitivas a determinados músicos se revela um exercício inútil e inconsequente.
 
Introduzidas, em geral, por uma exposição temática em rubato, as várias peças que compuseram o line up deste concerto serviram sem dúvida para recordar uma forma de compor que marcou toda uma época e que, tendo embora a matriz inconfundível de Jarrett, ao mesmo tempo evidenciava os sinais omnipresentes de um Ornette Coleman.
 
Entre essas peças, as longas deambulações das duas partes de Survivor’s Suite (1976), numa atmosfera de desenvolvimento livre, o balanço castiço de Common Mama (1971), o swing terrível de Rotation (1975) ou o andamento templado e irresistível de De Drums(1973) serviram para realçar a qualidade composicional das três peças da sua autoria com que Schuller nos brindou: Dew Point (uma homenagem a Dewey Redman), «New Tune» (ainda sem título definitivo) e Back To School, com um fantástico solo absoluto de Tom Becham (vibrafone), naturalmente influenciado pelo estilo simultaneamente melódico e harmónico de um Gary Burton mas percussivo q.b. para deixar entender
uma curiosa originalidade.
______________________________________________________                                              
Braga Jazz
6, 7 e 8 de Março de 2008
                                                                                         
Orquestra Jazz de Matosinhos
Solista convidado: Chris Cheek
Direcção: Carlos Azevedo, Pedro Guedes
                                                                 
BassDrumBone
Mark Helias (contrabaixo)
Gerry Hemingway (bateria)
Ray Anderson (trombone)
                                                                                         
George Schuller' s «Circle Wide»
Donny McCaslin (saxofones)
Brad Shepik (guitarra)
Tom Bekham (vibrafone)
Dave Ambrosio (contrabaixo)
George Schuller (bateria)
                                                                                         

(1) Declaração de interesses: o cronista deste blog é, neste momento, autor das notas de programa relativas aos vários projectos da OJM.

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 14:31
Link para este post

Após um merecido descanso...

 

 

Regressa hoje ao convívio dos seus visitantes O Sítio do Jazz cuja actividade regular há alguns dias foi interrompida por motivos já aqui abordados.
 
Esta pausa forçada  – e que, é preciso dizê-lo, muito bem soube! –  levou o cronista a reflectir sobre a sofreguidão e o vício em que se pode tornar o natural prazer de comunicar, quando transformado numa espécie de obrigatório «assinar do ponto» ou na veleidade de tudo querer cobrir  (como se diz em linguagem jornalística), a ponto de poderem ser subvertidas as intenções iniciais que levaram à publicação deste blog e que muito claramente foram expostas num dos editoriais iniciais ou até figuram no seu próprio cabeçalho.
 
É assim fiel aos modestos propósitos que justificaram o surgimento de O Sítio do Jazz – e não esquecendo a paulatina parcimónia na frequência dos posts a publicar – que hoje se regressa à blogosfera, desde logo se aconselhando os visitantes a subscrever os feeds RSS, para uma automática notificação das actualizações que forem ocorrendo.

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:25
Link para este post
Sábado, 1 de Março de 2008

«Um Toque de Jazz» em Março

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                   

Na programação de Um Toque de Jazz para Março, prossegue aos sábados e domingos o ciclo de concertos Eurorádio que, desde o início do ano, tem vindo a revelar solistas e formações instrumentais de várias origens nacionais e diversas tendências estéticas.

 
Incluída, por exemplo, na série de concertos Konfrontationen realizados no clube Jazzgalerie (Nickelsdorf, Áustria), a actuação do multi-instrumentista alemão Peter Brötzmann, um dos nomes maiores do free jazz internacional, impõe-se naturalmente. Mas também o sexteto Strada do contrabaixista francês Henri Texier, que já actuou três vezes em Portugal, se destaca de uma programação que ainda nos reserva, entre outras, a actuação do pianista afro-americano Randy Weston com a Big Band da BBC no Festival de Jazz de Londres de 2006.
 
Março é também o mês em que se comemora o 60º. aniversário da criação do Hot Clube de Portugal, um dos mais antigos clubes de jazz em actividade contínua em todo o mundo e referência indispensável na história do jazz no nosso país. Um Toque de Jazz está naturalmente atento a esta efeméride e, convocando os microfones da Antena 2 para a cave do Hot, vai transmitir no último domingo do mês a gravação da actuação do quinteto Circle Wide, o primeiro a figurar no ciclo especial de concertos que, naquele local histórico, comemorarão o redondo aniversário.
 
Um Toque de Jazz é transmitido aos sábados e domingos, das 23:05 às 24:00, na Antena 2, podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui, via webcast. Após a sua transmissão, as emissões estão disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2.
                                                                                                                       

 
Sábado, 01.03.08 – O quarteto do saxofonista Chet Doxas (Canadá) com John Roney (piano), Zack Lober (contrabaixo) e Jim Doxas (bateria) no Clube Upstairs Bar and Grill (Montreal) em 16.02.06. Gravação Eurorádio.
 
Domingo, 02.03.08 – O quarteto do saxofonista Jean Toussaint (EUA) com Kirk Lightsey (piano), Tibor Elekes (contrabaixo) e Sangoma Everett (bateria) no Festival de Jazz Intöne (Diersbach, Áustria), em 25.05.07. Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 08.03.08 – O multi-instrumentista alemão Peter Brötzmann (sax-tenor, clarinete-baixo) em solo absoluto no Clube Jazzgalerie (Nickelsdorf, Áustria) em 14.07.06. O trio de Muhal Richard Abrams (piano)-Roscoe Mitechell (saxofones, flauta)-George Lewis (trombone) no Festival de Jazz de Saalfelden (Áustria) em 24.08.07. Gravação Eurorádio.
 
Domingo, 09.03.08 – O trio de Harald Haerter (guitarra), Joe Lovano (sax-tenor) e Nils-Petter Molvär (trompete) com Florian Stoffner (guitarra), Florian Goette (contrabaixo), Bänz Oester (contrabaixo) e Marcel Papaux (bateria) no Clube Fabrik (Hamburgo) em 07.10.06. Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 15.03.08 – O pianista francês Yvan Robilliard em solo absoluto nos Estúdios Charles Trenet (Paris) em 20.05.06. Gravação Eurorádio.
 
Domingo, 16.03.08 – O sexteto «Strada» do contrabaixista Henri Texier (França) com Sébastien Texier (sax-alto e clarinetes), François Corneloup (sax-barítono), Gueorgui Kornazov (trombone), Manu Codja (guitarra) e Christophe Marguet (bateria) nos Estúdios Charles Trenet (Paris) em 20.05.06. Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 22.03.08 – A Big Band do trombonista Nils Landgren (Suécia) nos Estúdios Rolf Liebermann da NDR (Hamburgo) em 08.12.06. Gravação Eurorádio.
 
Domingo, 23.03.08 – O noneto ToneART Ensemble (Dinamarca) no clube Salon K. Huset (Copenhaga) em 08.07.05. Gravação Eurorádio
 
Sábado, 29.03.08 – o pianista Randy Weston (EUA) com a Big Band da BBC no Festival de Jazz de Londres (Queen Elizabeth Hall) em 16.11.06.
 
Domingo, 30.03.08 – O quinteto «Circle Wide» (EUA) do baterista George Schuller, com Donny McCaslin (saxofones), Brad Shepik (guitarra), Tom Beckham (vibrafone) e Dave Ambrosio (contrabaixo) num concerto que inaugura as comemorações do 60º. aniversário do Hot Clube de Portugal e que se realizou em 05.03.08. Gravação Antena 2.
                                                                                                                

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:11
Link para este post

Área pessoal

Pesquisar neste blog

 

Outubro 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Para memória futura

Bernardo Sassetti (1970 ...

E no entanto ele move-se....

Ao vivo... Adam Rogers & ...

Em directo, do Village Va...

11 de Fevereiro de 2012

Depois da reabertura, a r...

Vídeos recentes (made in ...

A redonda celebração do G...

A redonda celebração do G...

Visionamentos...

Primeira audição

Consta por aí...

Jazz em Newport (2011)

Os 20 anos do Jazz no Par...

Serralves: já lá vão dua...

Intervalo (11)

Intervalo (10)

Intervalo (09)

Intervalo (08)

Intervalo (07)

Intervalo (06)

Intervalo (05)

Intervalo (04)

Intervalo (03)

Intervalo (02)

Intervalo (01)

Quem não se sente...

Sempre!

"Um Toque de Jazz" em Fev...

Arquivos

Outubro 2014

Maio 2012

Abril 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Tags

achados no baú

achados no baú (14)

achados no baú (15)

achados no baú (16)

achados no baú (17)

achados no baú (18)

achados no baú (19)

achados no baú (20)

achados no baú (21)

achados no baú (22)

achados no baú (23)

achados no baú (24)

achados no baú (25)

animação

ante-estreias

ao vivo

àpartes

arquivos

artigos de fundo

balanços

blogs

boas festas

bónus de verão

cinema

clubes

colectâneas

concertos

concertos internacionais

concertos portugueses

cooncertos

dedicatórias

descobertas

desenhos

directo

discos

discos em destaque

discos estrangeiros

discos nacionais

distribuidoras

divulgação

documentos históricos

editoras

editoriais

editorial

efemérides

em directo

ensino

entrevistas

escolas

escutas

férias

festivais

fotografia

gravações ao vivo

grupos estrangeiros

história

história afro-americana

homenagens

hot clube

humor

internet

intervalos

jazz

jazz ao vivo

jazz no cinema

leituras

links

live stream

livros

mp3

música sinfónica

músicos

músicos estrangeiros

músicos internacionais

músicos portugueses

músicos residentes

músios estrangeiros

natal

novos discos

obras-primas

pavões

pessoas

podcasts

portugal

prémios

primeira audição

produtores

produtores estrangeiros

r.i.p.

rádio

recursos

reedições

televisão

um bónus de verão

um toque de jazz

video-clip

vídeos

village vanguard

visionamentos

visitas

todas as tags

Links

Subscrever feeds